Em resumo
- Time próprio faz sentido quando o software é central para o negócio e vai evoluir por anos.
- Squad gerenciado faz sentido quando há prazo, escopo definido ou falta estrutura para contratar e liderar um time técnico.
- Compare o custo total, incluindo recrutamento, gestão, rotatividade e o tempo até o time estar produtivo.
- Os dois modelos podem conviver: um squad acelera enquanto o time interno é formado.
Uma rede de clínicas decidiu criar um aplicativo para agendamento e acompanhamento de pacientes. O diretor de operações fez as contas: contratar um líder técnico, três desenvolvedores, um designer e um analista de qualidade levaria de quatro a seis meses só de recrutamento, isso se tudo desse certo. O conselho queria a primeira versão no ar antes disso. A pergunta que chegou à mesa foi direta: montamos o time ou contratamos um?
Não existe resposta universal. Existe a resposta certa para o momento, o orçamento e o papel que o software vai ter no negócio.
O que é um squad gerenciado
Um squad é um time multidisciplinar, pequeno e autônomo, responsável por uma parte do produto de ponta a ponta. O termo ficou conhecido a partir de 2012, quando Henrik Kniberg e Anders Ivarsson descreveram a organização de times de engenharia do Spotify. No squad gerenciado, uma consultoria entrega esse time completo (desenvolvedores, qualidade, design, liderança técnica) e cuida da gestão do dia a dia, focado em objetivos definidos com a empresa.
Um time próprio, por outro lado, é contratado, liderado e desenvolvido pela empresa. O conhecimento fica em casa e o time se dedica só ao seu produto.
Quando o time próprio faz sentido
- O software é o negócio: ou é central para a vantagem competitiva, e vai evoluir por anos.
- Conhecimento estratégico: regras de negócio, dados e decisões de arquitetura que a empresa quer dominar internamente.
- Estrutura para liderar: a empresa tem ou vai contratar liderança técnica capaz de atrair, desenvolver e reter desenvolvedores.
- Horizonte longo: o investimento em recrutamento e formação se paga ao longo do tempo.
Quando o squad gerenciado faz sentido
- Prazo: a primeira entrega precisa acontecer antes do tempo que levaria para montar um time.
- Escopo definido: um projeto com começo, meio e fim, como uma migração, uma integração ou um novo módulo.
- Sem estrutura técnica: a empresa ainda não tem liderança de tecnologia para contratar e gerir desenvolvedores.
- Demanda variável: o volume de trabalho sobe e desce, e o time precisa acompanhar.
O que a engenharia de software ensina sobre essa decisão
Adicionar gente não acelera na mesma proporção
Em 1975, Fred Brooks escreveu em O Mítico Homem-Mês uma frase que virou lei: adicionar pessoas a um projeto de software atrasado o atrasa ainda mais. Novas pessoas precisam aprender o contexto, e a comunicação cresce com o tamanho do time. Isso vale para os dois modelos: um squad que chega a um projeto em andamento, ou contratações feitas às pressas no meio do caminho, precisam de tempo para render.
A estrutura do time vira a estrutura do sistema
A lei de Conway, formulada por Melvin Conway em 1968, diz que as organizações projetam sistemas que copiam as suas estruturas de comunicação. Se o squad externo trabalha isolado do resto da empresa, o software tende a refletir esse isolamento. O livro Team Topologies, de Matthew Skelton e Manuel Pais (2019), aprofunda a ideia e recomenda desenhar os times, internos ou externos, a partir dos fluxos de valor do produto e da carga cognitiva que cada time consegue absorver.
Meça o que importa
O programa de pesquisa DORA, resumido no livro Accelerate (Forsgren, Humble e Kim, 2018), identificou quatro métricas que se associam ao bom desempenho de times de software: frequência de deploy, tempo entre o código pronto e a produção, taxa de falhas em mudanças e tempo para restaurar o serviço. Elas servem para acompanhar qualquer um dos dois modelos, e são uma boa base para o contrato com um squad externo.
Os dois modelos lado a lado
| Critério | Time próprio | Squad gerenciado |
|---|---|---|
| Tempo até começar | Depende do recrutamento, muitas vezes meses | Semanas |
| Controle do dia a dia | Total | Compartilhado, com objetivos e métricas combinados |
| Conhecimento | Fica na empresa | Exige plano de documentação e transferência |
| Custo | Salários, encargos, benefícios, gestão, ferramentas e rotatividade | Valor do contrato |
| Flexibilidade | Menor: ajustar o time significa contratar ou desligar | Maior: o time cresce ou diminui com o projeto |
| Gestão das pessoas | Da empresa: contratação, carreira e retenção | Da consultoria, que forma e mantém o time |
Sobre o custo, a comparação justa é entre custo total e custo total. O salário de um desenvolvedor CLT é só o começo: encargos, provisões e benefícios podem aproximar o custo mensal do dobro do salário, e ainda há recrutamento, equipamentos, ferramentas e o tempo de gestão.
Cuidados ao contratar um squad
- 01
Defina objetivos, não só tarefas
O que precisa estar pronto e como o resultado será medido.
- 02
Garanta acesso ao código e à documentação
O repositório é da empresa desde o primeiro dia.
- 03
Tenha um responsável interno
Alguém da empresa que prioriza, decide e conhece o negócio.
- 04
Planeje a saída desde o início
Como o conhecimento será transferido, para um time interno ou para outro fornecedor.
Os dois podem conviver
Muitas empresas começam com um squad para acelerar a primeira versão e, em paralelo, contratam o time interno que vai assumir o produto. O squad entrega enquanto o time é formado e, no fim, ajuda na transição. Na rede de clínicas do início deste artigo, esse costuma ser o caminho mais equilibrado: aplicativo no prazo e conhecimento em casa no médio prazo.
A pergunta não é “terceirizar ou não”. É quanto do conhecimento do produto a empresa precisa ter dentro de casa, e em quanto tempo.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas tem um squad?
Em geral, entre cinco e dez. A ideia é um time pequeno o suficiente para se comunicar sem burocracia e completo o suficiente para entregar uma parte do produto de ponta a ponta. A composição varia conforme o objetivo: desenvolvedores, qualidade, design, produto e uma liderança técnica.
Quem é dono do código desenvolvido pelo squad?
Deve ser a empresa contratante, e isso precisa estar no contrato, junto com o acesso ao repositório desde o primeiro dia e a documentação. Não é um detalhe: é o que garante que o conhecimento não fica preso ao fornecedor.
Squad gerenciado é o mesmo que fábrica de software?
Não exatamente. Na fábrica de software, o fornecedor recebe um escopo fechado e entrega o resultado, com pouca interação no caminho. No squad gerenciado, o time trabalha de forma contínua e próxima ao negócio, com prioridades que podem mudar ao longo do projeto.
Fontes
- Frederick P. Brooks Jr. O Mítico Homem-Mês (The Mythical Man-Month), 1975
- Melvin E. Conway. How Do Committees Invent? Datamation, 1968
- Matthew Skelton e Manuel Pais. Team Topologies. IT Revolution, 2019
- Nicole Forsgren, Jez Humble e Gene Kim. Accelerate. IT Revolution, 2018
- DORA, DevOps Research and Assessment
- Henrik Kniberg e Anders Ivarsson. Scaling Agile @ Spotify with Tribes, Squads, Chapters & Guilds, 2012
Conteúdo informativo, preparado para ajudar no dia a dia de quem contrata e lidera pessoas. Não substitui a orientação de um advogado, contador ou especialista para o caso da sua empresa.




