Gestão de pessoas Artigo

Avaliação de desempenho: como fazer sem virar burocracia

Muitas empresas fazem avaliação de desempenho porque precisam, não porque ajuda. O que as pesquisas mostram, o que empresas como a Deloitte mudaram e como montar um ciclo simples, útil e justo.

Por Mariana Pianta5 min de leitura

Profissional de braços cruzados em um escritório

Em resumo

  • Segundo o Gallup, só 14% dos funcionários concordam fortemente que suas avaliações de desempenho os inspiram a melhorar.
  • A Deloitte descobriu que gastava perto de 2 milhões de horas por ano no processo de avaliação, e redesenhou o modelo.
  • Conversas frequentes sobre metas e desenvolvimento funcionam melhor que um único evento anual.
  • Critérios claros e calibração entre gestores tornam a avaliação mais justa.

Todo mês de dezembro, os gestores de uma empresa de serviços passavam duas semanas preenchendo formulários de avaliação com 25 competências, notas de 1 a 5 e campos de comentário. Os funcionários recebiam o resultado em uma conversa rápida, muitas vezes a única do ano sobre o próprio desempenho. Em janeiro, os formulários eram arquivados. Ninguém se lembrava deles até o dezembro seguinte.

Esse é o retrato da avaliação de desempenho em muitas empresas: um processo trabalhoso, feito uma vez por ano, que consome tempo e muda pouca coisa. A boa notícia é que ele pode ser bem mais simples e bem mais útil.

O que as pesquisas mostram

O Gallup, em seus estudos sobre gestão de desempenho, encontrou que apenas 14% dos funcionários concordam fortemente que as avaliações que recebem os inspiram a melhorar. Ou seja, para a grande maioria, a avaliação não cumpre o objetivo principal para o qual existe.

Em 2015, Marcus Buckingham e Ashley Goodall contaram na Harvard Business Review como a Deloitte redesenhou seu modelo. A empresa descobriu que gastava perto de 2 milhões de horas por ano com o processo de avaliação, entre formulários, reuniões e discussões de notas, e que boa parte desse esforço era dedicada a discutir as notas, e não a melhorar o desempenho. O novo modelo trocou a avaliação anual por conversas frequentes e por perguntas mais simples, focadas no que o gestor faria com cada pessoa no futuro.

A Deloitte não foi a única. Outras grandes empresas também reduziram o peso da avaliação anual e passaram a apostar em conversas mais frequentes entre gestores e times.

Para que serve a avaliação

Antes de desenhar o processo, vale responder: para que a empresa quer avaliar? Os objetivos mais comuns são três, e cada um pede um formato diferente.

ObjetivoPergunta que respondeFormato que funciona
DesenvolvimentoO que esta pessoa precisa para crescer?Conversas frequentes, feedback e plano de desenvolvimento
DireçãoEstamos focados no que importa?Metas claras, revisadas periodicamente
DecisõesQuem promover, reconhecer ou reajustar?Avaliação periódica com critérios claros e calibração

Muitos processos falham porque tentam atender aos três objetivos em uma única conversa anual. Separá-los ao longo do ano torna cada um mais eficaz.

Um ciclo simples

  1. 01

    Metas no início do ciclo

    Três a cinco metas por pessoa, ligadas às prioridades da área. Metodologias como os OKRs, popularizadas por Andy Grove na Intel e por John Doerr no livro Measure What Matters (2018), ajudam a conectar as metas individuais às da empresa.

  2. 02

    Conversas frequentes

    Conversas individuais regulares entre gestor e pessoa, sobre o andamento das metas, obstáculos e desenvolvimento.

  3. 03

    Revisão periódica

    A cada trimestre ou semestre, uma conversa mais estruturada sobre o que foi entregue, o que aprendeu e o que ajustar.

  4. 04

    Avaliação para decisões

    Uma ou duas vezes por ano, com critérios claros, para decisões de promoção, reconhecimento e remuneração.

O que avaliar

Uma boa avaliação olha para duas dimensões: o que a pessoa entregou, em relação às metas, e como ela entregou, em relação aos comportamentos que a empresa valoriza. Formulários com dezenas de competências diluem a atenção. Poucos critérios, bem descritos, funcionam melhor.

  • Entregas: as metas foram atingidas? Qual foi o impacto?
  • Comportamentos: três a cinco comportamentos importantes para a empresa, como colaboração, qualidade e responsabilidade, descritos com exemplos do que é esperado.
  • Desenvolvimento: o que a pessoa aprendeu e o que precisa desenvolver para o próximo passo.

Como tornar a avaliação mais justa

Gestores diferentes avaliam de formas diferentes: uns são generosos, outros rigorosos. Sem ajuste, a nota diz mais sobre o gestor do que sobre a pessoa avaliada.

  • Critérios descritos: o que significa cada nível, com exemplos concretos.
  • Registro ao longo do ano: anotações sobre entregas e comportamentos, para não depender da memória dos últimos meses.
  • Calibração: uma reunião entre gestores para comparar as avaliações e alinhar a régua antes de comunicar os resultados.
  • Autoavaliação: a visão da própria pessoa enriquece a conversa e revela diferenças de percepção.

A conversa é mais importante que o formulário

Nenhum formulário substitui uma boa conversa. O momento em que o gestor senta com a pessoa, fala do que ela fez bem, do que precisa mudar e de como pode crescer é o que realmente faz diferença. O Gallup recomenda que essas conversas sejam tratadas como revisões de progresso, voltadas para o futuro, e não como julgamentos sobre o passado.

Prepare os gestores

O processo mais bem desenhado não funciona se os gestores não souberem conduzir as conversas. Muitos evitam falar de desempenho porque não sabem como começar, têm receio da reação ou nunca receberam uma boa avaliação para usar como exemplo.

  • Treine a conversa: como abrir, como apresentar fatos, como ouvir e como combinar os próximos passos.
  • Dê um roteiro simples: três ou quatro perguntas que organizam a conversa sem engessá-la.
  • Acompanhe: pergunte às pessoas avaliadas, de forma anônima, se a conversa foi útil.

Com o tempo, a qualidade das conversas de desempenho vira um bom indicador da qualidade da liderança da empresa.

Perguntas frequentes

Avaliação 360 graus vale a pena?

Pode ser útil para o desenvolvimento, especialmente de lideranças, porque reúne a visão de pares, liderados e gestores. Para decisões de promoção e remuneração, costuma gerar mais ruído do que clareza. Muitas empresas usam o 360 só para desenvolvimento.

Com que frequência avaliar?

As conversas sobre desempenho devem ser frequentes, semanais ou quinzenais. Revisões mais estruturadas funcionam bem a cada trimestre ou semestre. Avaliações para decisões de remuneração costumam ser anuais ou semestrais.

Empresa pequena precisa de avaliação de desempenho formal?

Precisa de conversas regulares sobre desempenho, metas claras e critérios para promoções e reajustes. Um processo simples, com poucas etapas, já resolve. Formulários complexos raramente se justificam em empresas pequenas.

Fontes

  1. Gallup. Give Performance Reviews That Actually Inspire Employees
  2. Marcus Buckingham e Ashley Goodall. Reinventing Performance Management. Harvard Business Review, 2015
  3. John Doerr. Measure What Matters. Portfolio, 2018

Conteúdo informativo, preparado para ajudar no dia a dia de quem contrata e lidera pessoas. Não substitui a orientação de um advogado, contador ou especialista para o caso da sua empresa.

Escrito por

Mariana Pianta

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